O Partido da classe operária<br>e de todos os trabalhadores

Margarida Botelho (Membro da Comissão Política)
Em Novembro, durante a campanha de recolha de assinaturas contra o aumento da idade da reforma, uma brigada esteve à porta da Davion, indústria de vestuário com cerca de 220 trabalhadores, em Oliveira do Hospital, onde o Partido vai com regularidade distribuir propaganda.

De­sa­fi­ando a vi­gi­lância dos chefes, só duas tra­ba­lha­doras re­cu­saram o co­mu­ni­cado do PCP

Naquele dia, as operárias – porque são mulheres a esmagadora maioria dos trabalhadores da Davion – falaram com os camaradas dos problemas sentidos. Os patrões têm imposto horas de trabalho suplementar, supostamente ao abrigo da «adaptabilidade de horário», prevista no Código do Trabalho por um período limitado de tempo, mas que na Davion tem servido, há mais de um ano, para trabalhar 45, 50 e até mais horas por semana, incluindo sábados, sem qualquer pagamento suplementar. Além disso, quem se recusa a ficar na fábrica mais do que as 8 horas recebe em casa cartas registadas da Administração com ameaças de processo disciplinar.
O Partido distribuiu um comunicado às trabalhadoras, solidarizando-se e apelando à unidade na sua luta, denunciou a situação à comunicação social e entregou um requerimento na Assembleia da República, exigindo ao Governo que reponha a legalidade na empresa.
A reacção dos patrões não se fez esperar: ameaças aos membros do Partido que à porta da empresa contactavam com as trabalhadoras e uma queixa entregue no Ministério Público (que por sua vez notificou o PCP «para informar a identificação completa dos seus militantes» que se deslocaram à empresa - que naturalmente não lhes foi fornecida). Além disto, uma das trabalhadoras telefonou para o número que constava nos comunicados, a avisar, revoltada, que os patrões tinham lançado um abaixo-assinado contra o Partido.
Basicamente, o texto do abaixo-assinado dizia que era mentira o que o Partido denunciava, que este queria destruir as poucas empresas têxteis que ainda existem, e terminava com um clarificador «harmoniosamente unidos, passamos a assinar». O que o texto não podia dizer foi a forma como este circulou: encabeçado por todos os chefes de secção, foi um dos patrões pessoalmente quem recolheu as assinaturas e se encarregou de mandar para casa «de férias» algumas das trabalhadoras que não quiseram assinar. E foram cerca de 50 as operárias que se recusaram a juntar o seu nome a uma mentira.

A co­ragem de en­frentar

Merece a pena abrir aqui um parêntese para explicar o contexto mais geral da situação. Oliveira do Hospital é um concelho com 22 mil habitantes, no interior do distrito de Coimbra, conhecido entre os industriais pela «paz social» que se vive, com uma enorme dependência do sector têxtil: cerca de 20 empresas empregam mais de mil operários. Só nas últimas semanas, abriram falência duas empresas de vestuário: a Car­rera, que lançou 87 trabalhadoras para o desemprego, e a In­fi­nitum, com mais 93 mulheres. Além desta pressão aflitiva do desemprego, é justo dizer-se também que esta é uma região com fraca implantação sindical e com uma frágil organização do Partido. Tem por tudo isto um valor ainda mais extraordinário a coragem destas 50 trabalhadoras, exploradas e ameaçadas, que reconhecem no nosso o único partido que as ouve, lhes leva informação à porta da fábrica, levanta a voz em sua defesa.
Quando se voltou à empresa depois deste episódio (que teve inclusivamente direito a título na imprensa regional, célere a dar espaço aos patrões mas que nem ao abrigo do direito de resposta publicou a versão verdadeira) houve uma espantosa reacção: todos os chefes alinhados à entrada e empoleirados na janela, a ver quem recebia o comunicado do Partido, criando uma tensão terrível. Operárias que pediam entredentes desculpa por terem assinado («ele obrigou-nos», «só falta é baterem-nos»), outras, em gestos de cumplicidade tocante, piscando o olho ou afagando o braço. Entre umas e outras, desafiando a vigilância dos chefes, só duas não aceitaram o comunicado.
Vem esta experiência concreta a propósito do 85º aniversário do nosso Partido. Nestes 85 anos de vida e de luta, o PCP «recebeu sempre da classe operária o apoio, a força, a energia, a inspiração e os quadros necessários para prosseguir a luta e para avançar.»(1) Nestes 85 anos, plantou sementes e ganhou raízes nos corações e na inteligência de muitas gerações de mulheres e de homens portugueses. É tarefa deste nosso colectivo partidário lutar para que «o caminho da liberdade, da democracia, da independência nacional, da paz e do socialismo» (2) seja um caminho percorrido pela vontade do povo português.
__________

(1) Álvaro Cunhal, O Partido com Paredes de Vidro, pp. 44
(2) Programa do PCP


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